“Nós vencemos!”, pensou ele. “Nós vencemos!”. Ele continuou a repetir essa frase em sua mente, sem parar. Mesmo sabendo que a frase não tinha o menor sentido. Que espécie de vitória era aquela? Ele sempre pensava em sim mesmo como um ser humano decente e civilizado, um médico, um homem que dedicava vida a curar os outros.. Ma ele se transformara num animal selvagem, dominado pela ânsia de matar. Levara um homem doente à beira da insanidade, e depois o assassinara. Era um fardo terrível que teria de carregar pelo resto da vida. Porque, muito embora pudesse justificar-se alegando que fora de legítima defesa, ele sabia – e que Deus o ajudasse! – que gostara de fazê-lo. E por isso jamais poderia perdoar-se. Ele não era melhor que ninguém. A civilização era uma camada fina e perigosamente frágil. Quando essa camada se rompia, o homem tronava-se novamente igual às bestas selvagens, resvalando de volta ao lado dos abismos primitivos, dos quais ele se orgulhava de ter saído para sempre.
Judd estava cansado demais para continuar a pensar nisso. Agora, queria apenas certificar-se de que Anne estava em segurança. O tenente estava parado ao seu lado, numa atitude estranhamente gentil.
- Há um carro da polícia a caminho da casa de Anne. Certo?
Judd assentiu com a cabeça, agradecido.
O tenente segurou-lhe o braço e levou-o até o carro. Ao avançar lenta e dolorosamente pelo pátio, distante, as nuvens e trovoadas haviam sido varridas pelo vento forte de dezembro, e o céu começava a clarear. A oeste, um pequeno raio de luz apareceu. Era o sol, lutando para atravessar a camada de nuvens, seu brilho tornando-se cada vez mais intendo.
Ia ser um natal maravilhoso.
(Trecho do livro ‘A Outra Face’ de Sidney Sheldon.)

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