[...]Uma coisa que ele disse era verdade. Há dois anos não recebia uma carta da mãe. Ela escrevia bastante quando ele entrou para o exército, pelo menos uma vez por semana, às vezes até duas, mas Miller devolvia todas as cartas fechadas e depois de um ano ela desistiu. Tentou telefonar algumas vezes, mas Miller não atendia o telefone, e ela desistiu disso também. Miller quer que ela compreenda que seu filho não é homem de oferecer a outra faze. É um homem sério. Se você o traiu uma vez, o perdeu para sempre. [...]
[...]O futuro. já não se sabe o bastante do futuro, sem precisar desenterrar os detalhes? Só se precisa saber uma única coisa do futuro: é que tudo fica cada vez pior. Sabendo disso, você sabe de tudo. Os aspectos específicos não valem o esforço de se pensar neles. [...]
[...]É verdade - tudo fica cada vez pior. Um dia você está sentado na frente da sua casa, espetando um formigueiro com uma vareta, ouvindo o tilintar dos talheres e as vozes de sua mãe e seu pai na cozinha, então, num determinado momento de que você nem consegue se lembrar, uma dessas vozes desaparece. E você não a ouve nunca mais. Passar por um dia após o outro é passar por uma emboscada. [...]
[...]Algum dia Miller vai morrer. Ele sabe disso e se orgulha por saber, quando todos os outros só fingem saber, acreditando secretamente que vão viver para sempre. Mas não é por isso que ele acha que é impossível pensar no futuro. Hà algo pior do que isso, algo que não deve ser considerado e que ele não vai considerar.
A Noite em Questão - Tobias Wolff
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